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Definição

A lepra (doença de Hansen) é uma infecção crónica, causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que lesa principalmente as terminações nervosas do sistema nervoso periférico, a pele, a membrana mucosa do nariz, os testículos e os olhos. Denominada, com o aproximar do século XX de doença de Hansen devido ao microbiologista norueguês, Gerhard Hansen, que em 1873, fez o isolamento e identificação d micobactéria.

Parâmetros históricos

Leper bell
Apesar de só ter tido uma elevada expressão na Europa a partir dos séculos XII e XIII, com cerca de 1% da população afectada, acredita-se que a lepra chegou à Europa e se disseminou devido aos contactos das civilizações clássicas como oriente, como por exemplo durante as conquistas de Alexandre, em que os soldados provenientes do leste regressavam à Europa, e a expansão de áreas mercantis pelos romanos.

Todavia, constam registos e referências alusivos à lepra desde o período do antigo Egipto (1350 AC), com mais de 3000 hieróglifos, seguindo-se a Bíblia também com passagens nas quais faz referência à doença, assim como a antiga lei israelita que obrigava os religiosos a saberem distinguir a doença. Um dos grandes problemas com o qual esta doença se tem debatido, até meados do século XX, prende-se com a estigmatização dos doentes, apesar de na actualidade já existirem métodos de diagnóstico e terapêutica muito eficazes. Esta estigmatização foi particularmente evidente durante a idade média, altura em que a lepra se encontrava bastante disseminada no continente europeu. Tendo em conta que o conhecimento médico existente na época sobre a doença remete para as obras clássicas de Hipócrates, as causas, ainda desconhecidas, da doença eram associadas a castigos divinos. Durante a idade média os leprosos eram identificados por padres ou autoridades espirituais que os separavam da comunidade em geral depois de um ritual em que eram considerados “mortos apara a sociedade mas vivos para deus”. Os rituais aconteciam na presença do doente que por vezes estava de pé junto de uma sepultura. Depois deste ritual, o acesso da pessoa à sua localidade era muito limitado só salvo raras excepções. Sendo que estavam “mortos para a sociedade”, eram desprovidos de todos os seus bens e para evitar o contágio eram remetidos para as leprosarias, hospitais de isolamento, casas de leprosos onde lhes eram prestados cuidados de saúde, ainda que limitados. O medo do contágio era generalizado pelo que foram criadas leis em que obrigavam os leprosos a identificar a sua presença com elementos visíveis à distância, como uma faixa amarela usada por cima da capa ou das roupas e ainda um sino para avisar quem passasse muito perto deles. O declínio da lepra na Europa veio com o aparecimento da tuberculose e em meados do século XIV com a peste negra, ambos levaram à morte dos indivíduos mais imunodeprimidos baixando bastante o número de pacientes com lepra.

Parâmetros geográficos

Os casos da lepra encontram uma maior distribuição em regiões tropicais e subtropicais. Actualmente existem cerca de 15 milhões de leprosos no mundo estando distribuídos por África, sul e sudoeste asiático e na América do sul. Todavia esta distribuição reflecte não só as condições climatéricas de calor e muita humidade propícias ao desenvolvimento de microrganismos, mas também a pobreza que existem nessas regiões. No passado acredita-se que a lepra se estendesse a regiões a norte do círculo árctico.

Epidemiologia

Além do Homem, outros animais de que se têm notícia de serem susceptíveis à lepra são algumas espécies de macacos, coelhos, ratos, aves e o tatu. Este último pode servir de reservatório e há casos comprovados no sul dos EUA de transmissão por ele. Contudo a maioria dos casos é de transmissão entre seres humanos. A lepra afecta hoje em dia ainda mais de 15 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo que existem cerca de 700.000 novos casos por ano. No entanto é de referir que em países desenvolvidos é quase inexistente, por exemplo a França conta com apenas 250 casos declarados. Em oposição, no ano de 2000, 738.284 novos casos foram identificados em países como: a Índia, a Birmânia, o Nepal totalizando assim 70% dos casos em 2000. Em 2002, 763.917 novos casos foram detectados: o Brasil, Madagáscar, Moçambique, a Tanzânia e o Nepal representam então 90% dos casos de lepra.

Etiologia

Micobacterium leprae pertence a um grande grupo de bactérias cuja principal característica é serem parasitas intra celulares. Alvo de aprofundado estudo, os membros da família de Micobacteriaceae são conhecidos por infectar mamíferos e aves como foi referido anteriormente. Normalmente, não há transmissão entre indivíduos de espécies diferentes todavia existem alguns casos como por exemplo a tuberculose bovina. De todas as espécies de micobactérias, apenas o M. tuberculosis e M. leprea são transmitidas entre humanos. Os principais mecanismos de entrada no organismo são através das vias respiratórias ou da pele mas permanecem durante tanto tempo num estado de latência, entre 5 a 10 anos, que o seu desenvolvimento e disseminação actualmente ainda não se encontram totalmente compreendidos.

Transmissão

A forma de transmissão da lepra ainda não é conhecida. Todavia, quando um doente não é tratado e espirra, as bactérias Mycobacterium leprae dispersam-se e sob a forma de aerossóis entram nas vias respiratórias de quem esteja perto. Cerca de metade das pessoas com lepra contraíram-na, provavelmente, através do contacto estreito com uma pessoa infectada, ou seja, é necessária uma exposição prolongada ao microrganismo. A infecção com Mycobacterium leprae provavelmente também poderá provir da terra, do contacto com tatus e mesmo com mosquitos e percevejos. Todavia, convém relembrar cerca de 95 % dos indivíduos expostos ao Mycobacterium leprae não contraem a doença porque o seu sistema imunitário combate a infecção. Naqueles em que isso acontece, a infecção pode ser de carácter ligeiro (lepra tuberculóide) ou grave (lepra lepromatosa). A forma ligeira, ou seja a lepra tuberculóide, não é contagiosa.

Manifestações clínicas

Leper
Devido ao facto de as bactérias responsáveis pela lepra se multiplicarem muito lentamente, os sintomas não começam habitualmente antes de um ano, pelo menos, após a pessoa se ter infectado; o usual é mesmo surgirem de 5 a 7 anos mais tarde e algumas vezes muitos anos depois.

Os sinais e sintomas da lepra dependem da resposta imunológica do doente. O tipo de lepra determina o prognóstico a longo prazo, as possibilidades de complicações e a necessidade de um tratamento com antibióticos. De forma muito resumida assim se distinguem as diferentes variantes desta doença: Na lepra tuberculóide, aparece uma erupção cutânea formada por uma ou várias zonas esbranquiçadas e achatadas. Estas áreas são insensíveis ao tacto porque as micobactérias lesaram os nervos. Na lepra lepromatosa, aparecem sobre a pele pequenos nódulos ou erupções cutâneas salientes, de tamanho e forma variáveis. O revestimento piloso do corpo, incluindo as sobrancelhas e as pestanas, desaparece. A lepra limítrofe (borderline) é uma situação instável que partilha características de ambas as formas. Nas pessoas com este tipo de lepra, a doença tanto pode melhorar, caso em que acaba por se parecer com a forma tuberculóide, como piorar, circunstância que resulta mais parecida com a forma lepromatosa. Durante a evolução da lepra não tratada ou mesmo naquela que, pelo contrário, recebe tratamento, podem verificar-se certas reacções imunológicas que por vezes produzem febre e inflamação da pele, dos nervos periféricos e, com menor frequência, dos gânglios linfáticos, das articulações, dos testículos, dos rins e dos olhos. O Mycobacterium leprae é a única bactéria que invade os nervos periféricos e quase todas as suas complicações são consequência directa desta invasão. O cérebro e a espinal-medula não são afectados. Devido ao facto de diminuir a capacidade de sentir o tacto, a dor, o frio e o calor, os doentes com lesão dos nervos periféricos podem queimar-se, cortar-se ou ferir-se sem se darem conta. Além disso, a lesão dos nervos periféricos pode causar debilidade muscular, o que por vezes faz com que os dedos adoptem a forma de garra e se verifique o fenómeno do «pé pendente». Por tudo isso, os leprosos podem ficar desfigurados. Os afectados por esta doença também podem ter úlceras nas plantas dos pés. A lesão que sofrem os canais nasais pode fazer com que o nariz esteja cronicamente congestionado. Em certos casos, as lesões oculares produzem cegueira. Os homens com lepra lepromatosa podem ficar impotentes e inférteis, porque a infecção reduz tanto a quantidade de testosterona como a de esperma produzido pelos testículos.

Tratamento

No passado, as deformações causadas pela lepra conduziam ao isolamento dos doentes em instituições e colónias. Em alguns países esta prática continua a ser frequente. Apesar de o tratamento precoce poder evitar ou corrigir a maioria das deformações mais importantes, as pessoas com lepra estão propensas a sofrer de problemas psicológicos e sociais. O isolamento, contudo, é desnecessário. A lepra só é contagiosa na forma lepromatosa quando não recebe tratamento, e mesmo nesses casos não se transmite facilmente. Além disso, a maioria das pessoas tem uma imunidade natural face à lepra e só aquelas que contactam com um doente durante muito tempo correm o risco de contrair a infecção. Os antibióticos podem deter o avanço da lepra ou mesmo curá-la. Dado que algumas das micobactérias podem ser resistentes a determinados antibióticos, o médico pode prescrever mais do que um medicamento, em especial para os afectados pela lepra lepromatosa. O antibiótico mais frequentemente utilizado para tratar a lepra, todavia a rifampicina tem vindo a ser aplicada em casos de resistência.

Bibliografia

Kenneth, F. Kiple, Major Human Diseases Past and Present, The Cambridge World History of Human Disease, Cambridge University Press, 1993