Ars curandi Wiki
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A medicina e a religião estão interligadas desde o início dos tempos. Em todas as civilizações existram indivíduos que, em caso de doença, procuravam ser ajudados pelo padre em vez do médico ou que visitavam templos e igrejas na esperança de que um milagre pudesse acontecer. Para além disto, havia também um factor económico que não deve ser esquecido: a terapia religiosa era mais barata que os fármacos e operações médicas. Enquanto Deus se contentava com um pequeno sacrifício, os médicos exigiam ser pagos a peso de ouro.

A Visão Cristã da Medicina

Atitude do Cristianismo face à Medicina

Multidão à espera de um milagre curativo.

O Cristianismo tinha uma atitude ambígua relativamente à Medicina, embora no geral a visse como algo positivo. Alguns padres, tendo por base os milagres curativos descritos nos envangelhos, enfatizavam o poder da fé na cura das doenças, o que levou a que, especialmente a partir de 370, os túmulos dos santos e mártires se tornassem locais de peregrinação para os doentes, substituindo assim os templos pagãos de Asclépio. O Cristianismo também acreditava no conceito de toda uma comunidade unida pela religião na qual tudo, incluindo a medicina, tinha lugar. Um exemplo ilustrativo da afirmação anterior é a importância dada à preparação do paciente para uma boa morte que o conduzisse ao Paraíso, sendo que para isso, junto do seu leito, era necessário um médico, para além do padre. Apesar disto, ao longo dos séculos, alguns sectores fundamentalistas da religião cristã condenaram por vários motivos a medicina.

Separação entre a Medicina e a Igreja

A visão cristã acerca do corpo sugeria uma divisão em termos de trabalho entre a Igreja e os profissionais médicos, segundo a qual os padres estariam encarregues da salvação da alma enquanto que os médicos deveriam cuidar do corpo do paciente. Os membros do clero chegaram mesmo a ser proibidos de verterem sangue através da prática de cirúrgias e de se envolverem no tratamento de problemas físicos. Desta forma, os médicos e os padres seguiram rumos diferentes:

  • Alma - Responsabilidade da Igreja
  • Corpo - Responsabilidade da Medicina


Caridade e Hospitais

A caridade era vista como a virtude suprema do cristianismo e em nome do amor e com a convicção de que todas as almas poderiam ser salvas, os crentes estavam dispostos a cuidar de todos aqueles que necessitassem de ajuda. Antes desta religião se tornar predominante, os actos de caridade estavam limitados a grupos restritos, geralmente compostos exclusivamente por homens, no entanto, após Consatantino, em 313 AD, ter concedido ao Cristianismo o título de religião oficial do Império Romano, este conceito foi alargado de forma a incluir nele todos os crentes. Na sequência deste pensamento surgiu um produto final: o hospital.

Em 60 AD, os Judeus haviam construído albergues para aqueles que estivessem em peregrinação ao Templo de Jerusalém de forma a que estes pudessem obter assistência médica. Os cristãos expandiram estes albergues em termos geográficos, sendo que em 400 AD eles já se haviam tornado comuns na Ásia Menor e na Terra Santa e em 450 AD já se haviam expandido até ao Norte de África e Sul de França.

A maioria dos hospitais eram pequenos, embora em Constantinopla ou Jerusalém estes tivessem duzentas ou mais camas, e o grupo de pessoas por eles auxiliado era bastante variado - doentes, velhos, pobres e estranhos - sendo que algumas vezes essas pessoas eram albergadas todas no mesmo hospital e noutras eram separadas consoante a sua condição. A assistência médica estava disponível somente nos hospitais de maiores dimensões, sendo que a maioria provinha apenas os cuidados essencias, ou seja, comida e abrigo, embora estes cuidados fossem também importantes no proceeso de cura. No que diz respeito à gestão dos hospitais, esta era efectuada, nalguns casos, como sendo um negócio de família, enquanto que noutros estava ao cargo do bispo que era encarado como sendo o pai da comunidade. Estes hospitais eram exemplos da caridade cristã em acção, funcionando alguns deles como uma extensão das casas religiosas.

Bibliografia

  • PORTER, Roy. (1996). Medicine, Cambridge Ilustrated History. Cambridge University Press.
  • Medicine In Society. (1992). Edited by Andrew Wear. Cambridge University Society.
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